Cortes no setor de cultura se espalham pela Europa

redacao
in 20/08/12 by redacao

Redução dos orçamentos deixa patrimônios históricos em segundo plano nos países mais afetados da zona do euro

O potencial cultural da Europa é sempre enaltecido mundo a fora. Museus, galerias, teatros e monumentos históricos, aliados a programas com subsídio governamental, fazem do continente europeu o lugar ideal para artistas e, consequentemente, espectadores. A atual crise financeira, porém, coloca esse status em xeque. Em um momento no qual as medidas de austeridade impõem severos cortes de benefícios à população, com desemprego em alta e o risco iminente de ruptura do euro, pensar em cultura torna-se, para muitos países, algo frívolo. Nesse passo, a Europa pode até se salvar da crise, mas, se não cuidar de seu patrimônio, não será a mesma.

No olho desse furacão de cortes culturais estão países como Grécia, Espanha, Itália e Portugal, que somam 122 lugares declarados patrimônio da humanidade pela Unesco (13% do total) e que, em situação econômica delicada, sofrem para manter vivas suas marcas do passado.

O Coliseu, por exemplo, está com boa parte de sua estrutura deteriorada, o que resultou em uma enclinação de 40 cm devido ao excesso de visitantes. Com investimentos públicos em baixa, a solução veio do setor privado. O empresário Diego Della Valle, a troco de nada, investirá do próprio bolso 25 milhões de euros para restaurar o anfiteatro romano. O mesmo aconteceu em Veneza, onde a Bvlgari cobriu a Ponte dos Suspiros com anúncios para ajudar na reforma.

A Itália, que é o país com mais lugares protegidos pela Unesco (47), é um exemplo feroz de que a história nem sempre caminha para frente. Os 2,3 milhões de euros investidos em cultura em 2001 foram reduzidos, em 2012, para 1,4 milhão.
Situação semelhante pode ser vista na Grécia, cujo Ministério da Cultura havia sofrido, até junho passado, cortes de mais de 35% em seu orçamento, que deve ser ainda mais reduzido em 2013 e 2014. Reflexo disso foi o roubo que aconteceu em março no museu Olímpia, fato que deixou claro o quanto que o corte de recursos pode ser danoso. Os ladrões aproveitaram a vigilância reduzida para roubar peças de bronze e de cerâmica. Em janeiro, foram roubados um quadro de Picasso e outro de Mondrian da Galeria Nacional de Atenas, vigiado por apenas um guarda.

Na Espanha, segundo país com mais lugares protegidos pela Unesco (44), a crise afeta diretamente instituições que dependem de patriocinios oriundos de doações filantrópicas. Uma das mais afetadas foi a Fundación Caja Madrid, que recentemente fechou 48 centros culturais pelo país. Os cortes prejudicam também os trabalhadores do setor. Pesquisa da Ideas Foundation mostrou que a Espanha pode perder 60 mil empregos nos próximos quatro anos na área cultural.

Cenário diferente é visto na França. Apesar de o país não estar imune à crise do euro, os investimentos previstos à conservação do patrimônio público em 2012 são de 380 milhões de euros, número 0,2% maior do que no ano passado. Nessa Europa de velocidades diferentes, a Alemanha também parece não sofrer no quesito cultura, com investimentos sempre crescentes no setor desde 2008.

Mapa dos cortes culturais

Nesse cenário de ajustes financeiros em toda Europa, com reflexos cada vez mais claros nas vertentes culturais do continente, o jornal inglês The Guardian lançou um projeto para mapear o alcance dessas políticas de austeriadade (ver mapa). A iniciativa pede aos profissionais e usuários da cultura para que preencham um formulário para contribuir a visualizar o impacto dessas medidas. O mapa mostra onde houve cortes no orçamento de museus, teatros e galerias, entre outros espaços. Os detalhes do projeto podem ser encontrados aqui.