Tourada econômica: ‘olé’ na economia espanhola

The Brazilian Post
in 19/06/12 by The Brazilian Post

Por Christiano Holanda

Mais uma ajuda aos bancos, desta vez na Espanha. Quem poderia ter previsto tal coisa? Evidentemente a resposta é: qualquer pessoa. Desculpem o humor negro (os que me conhecem sabem que não o tenho), mas, na realidade, toda essa história começa a parecer uma rotina. Mais uma vez, a economia derrapa, o desemprego vai às alturas, os bancos enfrentam dificuldades financeiras e os governos correm para ajudar. E, mais uma vez, não devemos deixar de observar: só os bancos recebem ajuda, não os desempregados.

A título de esclarecimento, os bancos espanhóis precisavam mesmo de uma operação de salvamento. A Espanha estava claramente à beira de um “doom loop” – um processo bastante conhecido no qual a preocupação com a solvência dos bancos os obriga a vender ativos, o que derruba os preços dos ativos, o que por sua vez torna as pessoas ainda mais preocupadas com a solvência. Os governos podem deter esses círculos viciosos com uma injeção de dinheiro. Entretanto, nesse caso, o que está em questão é a própria solvência do governo espanhol, de modo que o dinheiro teria de vir de um fundo europeu mais amplo.

Portanto, não há nada de necessariamente errado nesse recente salvamento. O que impressiona é que, enquanto os líderes europeus organizavam essa operação de ajuda, eles indicavam que não tinham nenhuma intenção de mudar as estratégias que deixaram quase 25% dos trabalhadores espanhóis – e mais da metade dos seus jovens – sem uma ocupação. Particularmente, o Banco Central Europeu (BCE) não quis baixar os juros. Essa decisão estava sendo muito esperada, mas isso não deve nos impedir de observar que se trata também de uma decisão profundamente estranha.

O desemprego na área do euro é muito elevado, e todas as indicações mostram que o continente está entrando numa nova recessão. Ao mesmo tempo, a inflação está desacelerando. Segundo todos os parâmetros da política monetária, a situação exige agressivos cortes de juros. Mas o BCE não pretende se mexer. E sequer leva em conta o risco crescente de um colapso do euro. Durante anos, a Espanha e outros países europeus hoje em má situação sabiam que só poderiam se recuperar mediante uma combinação de austeridade fiscal e “desvalorização interna”, o que significa corte de salários. Agora, está evidente que a estratégia não funciona, a não ser que haja um forte crescimento, e, isso mesmo, uma moderada inflação no “coração” da Europa, a Alemanha – o que fornece mais uma razão para baixar os juros.

De onde virá o dinheiro?

Os ministros das Finanças da zona do euro aceitaram emprestar à Espanha até 100 bilhões de euros (125 bilhões de dólares) para ajudar os bancos espanhóis em dificuldades. Madri disse que especificará de quanto precisa assim que auditorias independentes forem concluídas, o que deve acontecer ainda este mês. Especula-se que o número pode chegar a 70 bilhões de euros. Ainda faltam, porém, detalhes de onde virá o dinheiro, o que faz os mercados agirem com precaução até que se saiba exatamente como será financiado o resgate, cujo valor a Espanha terá 15 anos para pagar.

De acordo com o Eurogrupo, o dinheiro pode vir do temporário Fundo Europeu de Estabilização Financeira ou do permanente Mecanismo de Estabilidade Europeu, que entra em vigor a partir do mês que vem. A Finlândia disse que vai querer garantias se o dinheiro vier do fundo temporário, mas fontes da União Europeia afirmaram que há uma preferência para canalizar o dinheiro para a Espanha através do fundo permanente. Por ele, uma taxa de aprovação de 90% ou menos é necessária para acionar a ajuda e há uma maior flexibilidade nas operações.

Dessa maneira, a Espanha evita que a participação do Fundo Monetário Internacional (FMI) seja maior. No fim da reunião, ficou acordado que o FMI ajudará a monitorar as reformas no setor bancário espanhol enquanto as instituições da União Europeia vão garantir que a Espanha honre os compromissos econômicos. O governo da Espanha já gastou 15 bilhões de euros socorrendo pequenos bancos regionais. O maior banco espanhol com problemas, o Bankia, vai precisar de um resgate de 23,5 bilhões de euros.

E aqui vai a minha frase preferida, que poderia ser usada como a citação da semana: “Seja qual for a fórmula a ser utilizada, precisamos dizer duas coisas. Primeira: os inocentes não devem sofrer pelos culpados. Segunda: o dinheiro público deve voltar aos cofres públicos”, declarou o chefe da oposição socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, depois de falar com o primeiro-ministro Mariano Rajoy.