By Rômulo Seitenfus
Aos 12 anos a brasileira Daniela Barone Soares, de Belo Horizonte, teve seu primeiro contato com a caridade e, ao visitar asilos e orfanatos, almejou fazer aquilo para sempre. Estudou na prestigiada Harvard Business School, nos Estados Unidos, e aos 30 anos já era vice-presidente do BankBoston quando resolveu largar tudo para fazer parte do mundo das ONGs. A economista renunciou os altos salários para trabalhar na Save the Children e, um ano depois, ingressou na Impetus Trust, a Organizacão Não Governamental que ajuda outras entidades a se estruturar financeiramente.
Hoje, convence milionários a investir no terceiro setor, influencia o governo inglês a testar novos modelos de projetos sociais e preside reuniões com empresários, políticos e membros da monarquia. Já foi chamada de “anjo dos negócios” pelo jornal The Guardian, e integra a lista das 100 personalidades que trabalham por um Reino Unido melhor, do também jornal britânico, The Independent. Nesta entrevista exclusiva ao The Brazilian Post, Barone explica como os investimentos são aplicados em projetos sociais, analisa a pobreza e reflete sobre as diferenças entre países. Revela alguns dos projetos que coordena frente à presidência da Impetus Trust e fala da influência do seu trabalho para testar novas formas de projetos sociais junto ao governo inglês.
Cheguei na casa da minha entrevistada. As varias obras de arte espalhadas pelos corredores expressam a sua alma extremamente feminina. A escada – em formato de caracol – me permite associar à sua personalidade, relacionada ao movimento crescente das transformações. Daniela Barone Soares adora meditação, ama as praias do Brasil e é louca por pão de queijo.
Você esteve na lista das 100 pessoas que mais contribuem por um Reino Unido melhor, uma pesquisa realizada pelo jornal britânico The Independent. Como foi a sua reação ao ver seu nome estampado na anual Happy List?
Foi uma surpresa porque eu não fui comunicada em nenhum momento antes da publicação. Vi meu nome somente quando abri a página da reportagem e me senti muito feliz, gratificada.
Você era vice-presidente do BankBoston e renunciou a carreira de altos salários para ajudar aos necessitados. Como isso aconteceu?
Foi fazendo meditação que passei a repensar a minha vida. Medito com a Brahma Kumaris há 12 anos, isso me ajuda a me autoconhecer e alinhar meus valores, repensando e focando no que realmente quero. Foi preciso muita coragem para largar uma carreira estável. Minha família e amigos opinaram para eu repensar, mas eu segui minha intuição. Seria um salto no escuro mas eu sabia o que queria. Com essa mudança meu padrão financeiro baixou, mudei de casa, fui morar longe e isso se refletiu no meu estilo de vida. Foi um pouco chocante naquele momento porque tive de me adaptar ao novo e ao mesmo tempo nunca olhei para trás. Senti que estava fazendo a coisa certa, cumprindo o meu objetivo de ter um impacto maior no mundo, acho que consegui. Hoje me sinto realizada.
Você se relaciona com personalidades influentes como milionários, políticos e membros da monarquia. Elas lhe ajudam em relação ao terceiro setor?
Algumas, não todas. Depende muito da motivação de cada um. Vários doadores da Impetus são pessoas super influentes, com muito dinheiro e extremamente intencionadas em lutar por um mundo melhor. Elas acreditam no que estamos fazendo e nos apoiam. E o fato de terem dinheiro nos ajuda muito a crescer, auxiliar no crescimento de outras ONGs e a ter influência com o governo. Claro que elas não influenciam nos assuntos governamentais mas o fato de termos essas pessoas no nosso conselho, como por exemplo, quando convidei o Ministro da Justiça Kenneth Clark e o Secretário de Estado para o Departamento de ‘Work and Pensions‘ Ian Duncan, para conversarmos por uma hora, o fato de terem comparecido reflete na união de forças por um mundo melhor.
Vários milionários estão na lista de colaboradores da Impetus. A pessoa precisa realmente ter muito dinheiro para doar e ser seu colaborador?
Aceitamos qualquer doação mas focamos nas pessoas que podem doar muito, por termos poucos recursos para fundraising. Também temos outro tipo de doação que a pessoa oferece os seus serviços, são profissionais que atuam como colaboradores voluntários da Impetus e doam suas habilidades.
No Brasil, presenciamos diariamente a pobreza nas ruas, enquanto na Inglaterra vemos menos, mas sabemos que ela existe. Como você vê essa diferença?
A pobreza no Brasil é explícita nas ruas, enquanto aqui na Inglaterra não. Quando entramos na casa das pessoas vemos cinco crianças dormindo em uma cama passando frio porque a família não tem dinheiro para pagar o aquecimento no inverno. A diferença comportamental que existe entre os dois países é que os brasileiros tem mais aspiração, sonham com uma vida melhor e têm esperança para o futuro. Aqui vemos uma falta muito grande de aspiração, de acreditar que a vida vale a pena ser diferente. Fazem 20 anos que quase não existe mobilidade social, enquanto no Brasil nos últimos cinco anos ocorreram inúmeras. É um país com problemas muito maiores que aqui, como violência, corrupção que no Reino Unido não se tem em grau tão elevado. Porém, no Brasil há uma esperança com o futuro.
Presidindo a Impetus, você influencia o governo inglês, contribuindo com vários projetos. De que forma ocorre essa atuação?
A Impetus influencia o governo identificando modelos sociais eficazes no combate à pobreza, que possam ser disseminados pelo sistema social identificando modelos que funcionam para resgatar as pessoas do meio que se perpetua na próxima geração. Os governantes estão muito interessados, temos contato com departamentos governamentais nas áreas em que atuamos mais fortemente, como educação, recidivismo (incidência de prisioneiros), desenvolvimento (prevenção dos zero aos cinco anos) e oportunidade social. Estamos desenvolvendo, por exemplo, um projeto que ajuda grávidas desamparadas, geralmente em situação caótica e desestruturada, a cuidar do filho, proporcionando estabilidade, saúde e cuidados, tanto para a mãe quanto para a criança.
Esse é um modelo usado pelos Estados Unidos e que funciona muito bem. Já foi testado aqui na Inglaterra?
Esse modelo é sucesso nos Estados Unidos. Já tivemos um piloto que funcionou muito bem aqui. O projeto abrange disseminar à todas as crianças que estão nascendo, são soluções sistêmicas para virar o jogo com mudanças radicais.
Imagino que você presencie um contraste social diário…
Teve um dia que literalmente no mesmo dia eu fui visitar uma prisão aqui na Inglaterra para acompanhar um programa que ajuda os detidos no aprendizado da leitura. Por muitos saírem (do cárcere) sem habilidades de trabalho através do analfabetismo, acabam cometendo crimes novamente. Para que isso seja evitado, esse programa oferece aprendizado aos carcerários. Logo mais à noite jantei ao lado do Príncipe Andrew e naquela hora percebi que a diferença entre o presidiário e o príncipe não é tão grande como ser humano. Claro que externamente é enorme mas na verdade penso que essa atitude interna de respeito e apreciação ao outro, faz com que você se deslumbre menos com o príncipe e tenha menos pré-julgamentos com o presidiário. Para mim, isso oferece uma visão mais equilibrada e me faz ver o outro, quem quer seja ele, de forma mais igualitária.
















